Arquivo | crônicas RSS feed for this section

Sou predestinada ao inferno?

20 fev

EU SOU UMA PRETERIDA

Me converti era recém casada aos 22 anos na batista (brasileira) ultramegahipertradicional [sic] aprendi que deveríamos querer aceitar a deus, no caso, o famoso (e erroneamente interpretado) “Eis que estou a porta e bato…”,  em conflito com os dogmas impostos eu e meu esposo migramos  para a batista nacional (renovada). Bom até aí tudo bem os sermões eram parecidos, mas ao ingressar no seminário da instituição é que fui conhecer de fato sobre o tema PREDESTINAÇÃO.  Para minha surpresa, mais da metade dos professores (a maioria pastores) eram calvinistas, o que não se refletia em seus respectivos sermões no púlpito (coisa de manipulador mesmo, ou de medroso, sei lá). Então, pude no seminário escolher (???) a qual doutrina seguir. Me tornei calvinista, me senti eleita! SOU PREDESTINADA!  Mas afinal, todos somos! Uns eleitos e outros preteridos.  Mas ainda não satisfeita, busquei entender  mais a fundo e mais e mais… e hoje cheguei a conclusão de que, apesar da doutrina calvinista ter mais base (bíblica), Calvino foi um equivocado e Armínio um perturbado!

Bom, concluo dizendo que sim! EU SOU UMA PRETERIDA, não sou eleita dentro dos moldes da instituição! Não creio na bíblia como sendo a palavra de deus (não consigo conceber como uma palavra viva pode ser retida em papel e tinta), não intento alcançar ser salva, antes, eu quero viver. E viver bem! Comer, beber, dançar, dar e receber prazer… Amar… Viver!

Porque o deus que a igreja prega está longe de poder salvar alguém de algo, se é que há “algo” para que possamos ser salvos deste “algo” (perdoa a redundância). A igreja com seus dogmas é uma instituição falida, com um deus falido, fraco e manipulável. O deus da igreja está morto! Sendo assim, de nada ele pode me salvar e mesmo se este tal deus tivesse o poder de salvar-me, eu não ia querer! Mesmo que este deus insistisse falando que já tinha determinado “antes da fundação do mundo” eu não aceitaria, não aceitaria jamais ser salva pelo deus da igreja!

Eu Sou Uma Preterida (Rozana Anja_Arcanja) / CC BY-NC-ND 3.0

Um texto que minha esposa leu no blog de um pastor amigo e fez com que ela fizesse uma pergunta.

22 set

Diante deste texto do sábio pastor Leandro (que ele não veja que estou o chamando de pastor rsrs) uma pergunta veio em minha mente, decidi publicar o texto e também a resposta de meu amigo Leandro.


“SODOMIZADOS” Espiritualmente…

A crise não nasce somente de uma situação específica que se torna insuportável. A crise é um estado extremado de diversidades de situações em conjunto, que agregadas tornam-se insuportáveis, conduzindo os indivíduos à loucura por alguma solução. Analisar a crise de forma sistemática é um erro terrível, que nos faz buscar calar a dor e não curar a doença. É fato que há muito tempo focamos nossas criticas em diversos seguimentos evangélicos, representantes religiosos, etc. Como se estes fossem os reais culpados por toda esta situação caótica em que se encontra a religião evangélica na atualidade. Devemos reconhecer que o que vivenciamos é apenas uma generalização de uma série de outras situações que há anos atrás foram vistas de forma displicente. Hoje estamos apenas a suportar em estado vegetativo a força dos cânceres que foram carcomendo a ética desta religião.

Das formas mais bizarras fomos “sodomizados” espiritualmente com uma multidão de doutrinas que corromperam a fé cristã, atirando as palavras do Cristo no lixo e tornando o que havia de mais belo no cristianismo em atitudes legalistas e apavorantes. Na atualidade quando se fala em cristianismo (em especial evangélico) facilmente foge das mentes aquele antigo sentimento que fazia referência aos portadores de esperança. Ao invés, somos alvo de olhares condenadores que nos apontam como cúmplices destas corjas de bandidos e criminosos, que invadem a televisão brasileira em nome do seu cristo bizarro, defecando nos lares através de seus programas pútridos e gananciosos.

Entretanto é verdade que os grandes culpados por toda esta imundice somos nós, que em grande maioria nos cognominamos como cristãos, mas desconhecemos as verdades do Cristo. Falo sem medo que mais do que 50% dos ditos cristãos na atualidade são participantes de perfis de religião que podem ser comparados com ideologias fundamentalistas bizarrentas, do que com a filosofia do cristo. Sendo que também grande parte desta parcela acaba por tornar o cristo em instrumento de negociação e capital, atraindo multidões em busca do cristo lucrativo. Poderia facilmente apontar muitos culpados, a começar pelos de minha época que aceitaram a teologia destes malditos pregadores norte americanos como o Essek. M Kenyon, Kenneth Hagin, Kenneth Copeland, Benny Hinn, entre outros mercadores do mal. Lamentável é perceber que hoje os que criticam esta corja, no passado iam até aos aeroportos brasileiros festejar a chegada dos mesmos, estendendo o tapete vermelho. Os mesmos imbecis que iam às igrejas de porta em porta divulgar e vender os seus livros.
Ainda assim eu seria superficial não percebendo que este câncer em meio ao cristianismo é muito mais antigo. Ele veio tomando formas diferentes, em tempos diferentes, instituições diferentes, dançando na língua de pregadores diferentes. Teve sua forma maquiada na reforma, embalou-se no colo de movimentos carismáticos, contudo é certo que ele tem por caminho uma história muito anterior a qualquer um destes eventos. Sei que hoje a religião cristã esta doente sofrendo de uma diversidade de doenças e patologias, mas se buscarmos na história se descobrirá rastros de pessoas e pensadores que indicaram este mal há muito tempo tolerado. Tolstói, Nietzsche, Voltaire, Rousseau, David Hume, Vitor Hugo, Dostoievski, dentre outros tantos que poderiam ser citados, foram interpretados em seu tempo como inimigos da “igreja” e da religião. Foram tachados como Ateístas, pelo simples fato de criticarem ferozmente o mesmo problema.  Em seu tempo estes se negavam a aceitar as regras impostas pelas instituições religiosas vigentes, e acabaram por cair em abandono e marginalização. Como forma de cultivar a sua espiritualidade, encontraram na critica uma forma de gritar por socorro.  É fato que todos em seus recônditos buscaram expressar sua forma de fé, e muitos vieram a compor para Deus algumas das mais lindas orações escritas até hoje. Como exemplo cito parte deste texto de Nietzsche:
Antes de prosseguir no meu caminho
E lançar o meu olhar para frente
Uma vez mais elevo, só, minhas mãos a Ti,
Na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas do meu coração,
Tenho dedicado altares festivos,
Para que em cada momento
Tua voz me possa chamar.

Sobre esses altares está gravada em fogo
Esta palavra: “ao Deus desconhecido”
Eu sou Teu, embora até o presente
Me tenha associado aos sacrílegos.
Eu sou Teu, não obstante os laços
Me puxarem para o abismo.
Mesmo querendo fugir
Sinto-me forçado a servi-Te.

Eu quero Te conhecer, ó Desconhecido!
Tu que me penetras a alma
E qual turbilhão invades minha vida.
Tu, o Incompreensível, meu Semelhante.
Quero Te conhecer e a Ti servir.

(Friedrich Nietzsche [1844-1900] em Lyrisches und Spruchhaftes [1858-1888].) Tradução: Leonardo Boff. O texto em alemão pode ser encontrado em Die Schönsten Gedichte von Friederich Nietzsche, Diogenes Taschenbuch, Zürich 2000, 11-1,2 ou em F. Nietzsche, Gedichte, Diogenes Verlag, Zurich 1994)
Que Deus faça esta à oração de todos que em meio a este lamaçal teológico buscam sobreviver a este câncer. Diante de tantas crises e tumores que nos saltam aos olhos, que possamos sobreviver a este antigo mal que vulgarmente atribuímos o nome de “casa de Deus”, mas que nada mais é do que a institucionalização da religião.
Leandro Barbosa
Segue a pergunta e a resposta:


Tenho a muito percebido este mal, este engodo pelo qual nossas igrejas têm estado não tenho ido a nenhuma, embora isto possa de alguma forma prejudicar meus filhos (dez e sete anos), e por isto estou me sentindo um tanto perdida, pois é difícil alguém que tem um mínimo de senso e inteligência (ainda mais tendo já cursado teologia), sentir-se a vontade em meio a tanta mediocridade e hipocrisia. Estou meio perdida sobre o que fazer por estar em dúvida se ainda compensa levar meus filhos a esta igreja corrupta para ouvir msg corrompidas que nos são entregues por pastores confusos, medíocres, hipócritas e corruptos. Este é meu dilema, levo-os ou não? Me diz, o que você faria em meu lugar? 


 

Lutero tem um posicionamento muito interessante sobre este assunto, e eu compartilho dos mesmos pensamentos. Em certo momento ele foi questionado sobre o caso de cristãos não encontrarem uma congregação descente para participarem, e diante da pergunta ele se posicionou da seguinte maneira. Ele instruiu aquele grupo a na falta de um grupo e liderança saudáveis, o líder do lar deveria assumir a posição sacerdotal em seu lar, e instruir a sua família de forma equilibrada a uma espiritualidade saudável. Na questão de liderança espiritual Lutero era muito plural, e não fazia uma divisão clerical em sua visão sobre a igreja. Ele considerava que todos eram iguais na igreja de Cristo, existia apenas uma diferenciação de chamado. Usei este exemplo para exemplificar a minha opinião sobre o assunto. Assim como eu acredito que a espiritualidade é individual, também acredito que a verdadeira igreja acontece dentro de nós. Então assim como ela se desenvolve em nosso interior, nós a representamos e participamos da mesma em todos os lugares. A pergunta que fica é: Porque não tornar nosso lar parte desta igreja e desta espiritualidade?
Creio que dar testemunho, ser cordial, são coisas básicas que refletem nas pessoas a nossa volta, o que dirá aos mais próximos? Jesus disse que onde houvesse dois ou mais reunidos em seu nome, ali ele estaria. Porque não trazer Jesus para dentro de nossas conversas e vivencias familiares? Porque naqueles momentos difíceis na vida de nossos familiares, não debatemos ou tratamos de nossa espiritualidade como algo incluso a nossa essência? Porque não escolhemos um momento onde se faça uma refeição e em meio às conversas não façamos de forma natural o nosso momento com Deus? Não de forma metódica, religiosa, mas deixando naturalmente fluir sabendo que para Deus o todo de nossa vida é interessante, não só as que consideramos como “espirituais”. Creio que por mais que tentemos controlar o mundo a nossa volta, é ilusão pensar que ele está sobre controle. Assim como nós teremos de escolher o nosso caminho, um dia nossos familiares também o terão. E nesta caminhada o que fará diferença será o legado que deixamos como testemunho para estes, a forma como lhes falamos sobre Jesus, em principal a devoção que reconheceram em nós, e com certeza digo: Não há maior legado e herança do que este. Não somos responsáveis pelas escolhas de nossos filhos, mas somos responsáveis pelas opções que lhes ensinamos. Tem um texto bíblico que exemplifica bem isso, que é muito gasto por grande maioria das pessoas:
“Ensina o menino no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não se desviará dele.” (Pv 22.6) 
Por mais engraçado e clichê que pareça, muitos interpretam este texto de forma errada. Eles crêem que se ensinarmos bem os filhos, (eles) não vão se desviar do caminho, mas se analisarmos o texto está falando o contrário. Ele diz que se ensinarmos bem o caminho, este (o caminho) não vai se desviar do menino. É o contrário! Por mais que amemos nossos filhos e desejemos o melhor, em um momento da vida eles farão as suas escolhas. A modelo de Cristo cabe a nós estarmos lá para auxiliá-los nas boas e nas más escolhas. Não é fácil a tarefa de educar e ensinar,  o melhor professor é aquele que faz do seu entorno uma forma de ensino. Lembre-se, a igreja não é apenas um grupo, ela é o todo! Quando entendemos isso, o mundo passa a ser a nossa igreja. Isso vale em especial para o nosso lar, os mandamentos não podem estar somente no papel, e sim devem estar em nosso coração para serem amados, e isso começa em casa. Espero ter ajudado!
Leandro

A CRÔNICA DA MULHER-PEDRA (meu desassossego)

13 abr

De novo e mais uma vez e de novo… Já disse que não lhe quero mais, não venha perturbar-me! Nosso caso já acabou. Voltei em busca de meus novos e velhos sonhos… Voltei para os que eu havia abandonado… Às vezes é preciso voltar para seguir adiante.

Mas… Tenho que lhe confessar, você ainda ronda meus sonhos, não! Sonhos não. Pesadelos! Você ainda me perturba… Ainda sinto seu gosto em minha boca, sinto teu cheiro. E teu cheiro me faz suar. Eu tremo e tento… Meu coração acelera, meus olhos te procuram, me descontrolo; corro, fujo. Tudo em vão! Quanto mais corro mais a sinto presente dentro em mim. Sempre a me atormentar… Pesadelos, sonhos a me importunar. Acordo e fujo! Corro, corro e corro. E já todo molhado pelo suor e cansado, percebo que não tenho mais forças para fugir. Cansei!

Então, trêmulo e exausto caio. Estou caindo e caindo… Rosto no chão. Não consigo mais fugir. Não posso mais. Decido me entregar de vez.

Mas num impulso sobrenatural me ponho de joelhos, o rosto ainda molhado pelas lágrimas e sujo pela poeira do chão, levanto meus olhos para o alto e clamo por ajuda: – Meu Deus livre-me desta mulher! Ela não tem coração e nem piedade de quem seu beijo prova. Há meu Senhor livra min alma desta mulher feita de pedra. Ela é só isto, uma pedra!

Então enquanto ainda choro e tremo sem nada poder ver, uma mão quente e macia… Uma voz sublime a me consolar. Seria mais um sonho? Não! Senti que não. Vi que não. Ele me ouviu. Deus ouviu-me! Mandou uma anja, minha anja e dois anjinhos pra me ajudar. Levanto. Ergo-me, tento me limpar, mas não tenho forças. Volto. Para prosseguir eu volto. E decido, não mais vou correr, nem fugir. Vou enfrentar a mulher-pedra. Tenho ao meu lado o Anjo do Senhor, uma anja e dois anjinhos. Não vou mais fugir de você mulher feita de pedra. Agora eu a vencerei, pois estou de volta a meu lar. Ainda que me perturbes em pesados sonhos (e sei que vai), eu me olho e olho ao meu redor, sei que não estou só (nunca estive, mas nunca os via), e digo mulher feita de pedra, nunca mais vou te beijar. Nunca mais…

Desta vez eu sei que posso dizer que nunca mais. Nunca mais…

Anderson Luiz de Souza

Porque Jesus não anda com Fariseus

5 nov
Lucas, no capítulo 15 de seu livro, registra um diálogo entre Jesus e os fariseus, que reclamavam do fato de Jesus receber e comer com publicanos.
A queixa deles fazia sentido: os publicanos eram gente que havia traído Israel e se tornado cobrador de impostos para os romanos. Eram como os que, na segunda guerra mundial, colaboraram com os nazistas que haviam invadido o seu próprio país.
Para os fariseus, o que faria sentido seria Jesus andar com eles, afinal, entre eles e Jesus, havia mais concordância doutrinária do que entre Jesus e qualquer outro partido judaico.
Jesus respondeu-lhes contando três parábolas: a ovelha perdida, a moeda perdida e o filho perdido.
Parábola é uma “estória” com fundo moral, para destacar um ensino.
Nessas três parábolas Jesus explica aos fariseus porque não andava com eles.
Na parábola da ovelha perdida, Jesus pergunta: Que pastor, tendo cem ovelhas, ao perder uma, não deixa no DESERTO as noventa e nove e sai à procura da perdida, e, quando a encontra, vai direto para casa para festejar com os amigos?
A resposta para essa pergunta é: nenhum pastor faria isso, pois perderia as noventa e nove, e tudo o que teria seria a ovelha perdida, se a encontrasse. A menos que estivesse abandonando as noventa e nove.
Era isso que Jesus estava a fazer, abandonando as noventa e nove. As noventa e nove ovelhas representavam os fariseus.
Jesus explica tê-los abandonado porque há mais alegria por um pecador arrependido, do que por noventa e nove justos que não precisam de arrependimento.
Por que Deus não ficaria alegre com noventa e nove justos que não precisam de arrependimento, se, como disse o salmista: Deus conhece o caminho dos justos? (Sl 1.6)
Porque justos são os que sempre se arrependem e não os que se julgam não necessitados de arrependimento.
Os fariseus eram assim, se julgavam justos que não precisavam de arrependimento, mas Jesus os denunciava por serem justos aos seus próprios olhos, mas não justificados por Deus (Lc 18.11-14)
Na parábola da moeda perdida, Jesus diz que ele é como a mulher que, tendo perdido uma dracma (salário de um dia de trabalho), revira toda a casa até encontrá-la, e, ao encontrá-la, chama vizinhas e amigas e faz uma festa.
A casa é Israel, e o que é revirado é tudo o que os fariseus, por conta própria, chamaram de sagrado, e que só servia para passar uma imagem falsa de Deus, afastando os homens da possibilidade do arrependimento. A dracma representava os publicanos.
Na parábola do filho perdido, Jesus concorda com os fariseus quanto aos publicanos: deixa claro que são pessoas que jogaram para o ar tudo o que tinham junto ao Pai, para viver dissolutamente, seduzidos pelos romanos, que, por fim, apenas lhes estavam oferecendo viver numa pocilga.
Mas o Pai jamais desistiu dos publicanos, mantendo-lhes aberta a porta do arrependimento.
Entretanto, os fariseus, a exemplo do irmão mais velho, não o admitiam. Entendiam-se como juízes de seus irmãos, não dando crédito ao arrependimento dos mesmos, até por julgá-los incapazes de tal ato.
Os fariseus, como o irmão mais velho, não conheciam, de fato, o Pai, e não o amavam; pior, entendiam que o Pai tinha uma dívida para com eles, por causa da fidelidade com que o serviam sem nada receber em troca. E, em não amando o Pai, não amavam a ninguém. E quem não ama não considera a possibilidade do arrependimento do outro.
Jesus, em muitos casos, podia até ter o mesmo enunciado que os fariseus, mas não tinha o mesmo coração.
E… Como disse o poeta e compositor Claudio Manhães: “Diferente é o coração, a diferença é o coração!”
A boa doutrina tem de, necessariamente, gerar um bom coração, senão será, mesmo que correta, um enunciado vazio, por não ter frutificado no coração de quem a prega.

Autor: Ariovaldo Ramos

UMA CRÔNICA SOBRE UM DIÁLOGO REFLEXIVO

29 out

“FALANDO SOBRE ÁRVORES”

– Olá meu como vai?
– Vou bem. mas você anda meio sumido; o que tem aprontado? ou, o que você aprontou?
– Nada. nada de novo, ou nada demais, ou nada de menos.
– O novo ou renovo está em Cristo!
– Não meu amigo, fique tranquilo, estou bem. Só resolvi passar um dia diferente e igual a todos os outros; olhando para a mesma árvore, debaixo da mesma sombra, na mesma cadeira. Sempre pensando e pensando, nada mais.
– Pensar não é agir, já te disse isto.
– É… já começo a duvidar de Freud (que diz que o pensamento é o ensaio da ação) e crer em você.
– O que andas pensando tanto?
– Nada demais. Só mesmo em como refazer minha vida, não sei o método certo, mas vou encontrar e sei que Deus me guiará.
– Sim eu creio nisto e estou orando por você e sua família.
– Amém. Olha vou lhe dizer uma coisa escute bem: “minha mente se abriu por completo. mas meu corpo ainda esta parado. Sempre olhando pra mesma árvore grande e frondosa. Sentado na mesma cadeira observando sempre e sempre a mesma árvore! Vendo o mesmo céu, que aqui é bem menos estrelado que aí. Faltam estrelas neste céu. céu límpido e sem estrelas. vento que sopra e suaviza o calor. Chuva que traz águas do céu e que me encantam. (sinto uma imensa atração pela chuva, ainda vou pensar a respeito disto) Mas aqui estou eu, mente aberta, corpo inerte. Mente que não para,corpo parado. Meu corpo ainda que tente, não consegue acompanhar minha mente. E eu fico aqui, mente aberta, corpo inerte, sempre sentado na mesma cadeira olhando pra mesma árvore, sempre pensando, mas como Freud diz:’o pensamento é o ensaio da ação’, mas cadê a ação? eu digo e me questiono: Pensar é pensar, agir é tornar pensamentos em atitudes. Até quando olhando pra esta árvore?”
– Sim… eu te entendo, mas agora escute: ” Vislumbre a árvore da vida ‘DEUS’, vislumbre a árvore do prazer ‘SUA ESPOSA’, vislumbre as duas árvores do jardim da família ‘SEUS FILHOS’. Aí sim, encontrarás descanso para sua alma.”

Anderson Luiz de Souza

CENTROS DE RECUPERAÇÃO, PORQUE RECUPERAM TÃO POUCO?

27 out

CENTROS DE RECUPERAÇÃO, PORQUE RECUPERAM TÃO POUCO?

Queria começar este artigo dizendo por ter passado por dois centros de recuperação e ter conhecido outros vários, falo um pouco do que vi, convivi e percebi por alguns dos centros por que passei.

Em primeiro lugar gostaria de citar que os centros que passei eram centros vinculados a igrejas evangélicas, e que os líderes destas, estes sim, são movidos pelo amor ao próximo e estão de fato preocupados com as vidas que por certo período de tempo, habita nestes centros e freqüenta as igrejas lideradas por estes homens que nutrem em seu coração, o amor pelas almas e ao próximo.

Bem, o que eu percebi nos centros por que passei foi uma total falta de estrutura dos mesmos, falta de apoio por parte dos governos, tanto no âmbito federal, estadual e municipal e até mesmo por parte das convenções destas igrejas que por muitas vezes, tem seus cofres abarrotados, mas que não investem nada ou quase nada perto da quantia que estas convenções (estas convenções são órgãos a que as igrejas estão sujeitas como a CBN, CBB entre outros “cês” espalhadas pelo nosso Brasil) guardam em seus cofres, dinheiro, que a meu ver, deveria ser usado para recuperação de vidas, seja dentro dos centros (os dependentes propriamente dito) seja na sociedade, na ajuda aos mais necessitados e menos favorecidos da sociedade, mas se não fazem isto nem com uma parcela de seus missionários espalhados na obra, porque motivos fariam com dependentes, marginalizados ou até mesmo os mais necessitados? Sem contar o preconceito sofrido por grande parte da sociedade e até mesmo pela membresia das igrejas (geralmente uma pessoa só deixa de ser preconceituosa depois de ter um de seus entes ‘depend-entes’) aos quais os centros são vinculados.

O que falta nos centros?

1- instalações apropriadas. Em geral, são sítios ou chácaras com pequenas casas e pequenos quartos que por vezes, pessoas chegam a dormir no chão.

2- falta de monitores e auxiliares devidamente habilitados e treinados. Em geral estes monitores são ‘ex-dependentes’ que passam a morar nos centros e a ocupar o cargo de monitores destes centros, mas sem nenhum tipo de especialização ou treinamento.

3- falta de uma verdadeira terapia ocupacional, sendo realizados apenas trabalhos de limpeza nas dependências do centro, como faxinas, capinas, e até na construção e reformas dos centros, ou das igrejas.

4- falta de profissionais específicos (psicólogos, psiquiatras e terapeutas).

O que sobra nos centros de recuperação?

A sobrecarga para os pastores que lideram as igrejas e os centros e o excesso de fé em Deus e que todo dependente vai se recuperar simplesmente passando seis meses nos centros e freqüentando o culto nas igrejas e que com muita oração e jejum, todos os problemas se resolverão, coisa que obvio, não acontece. Pois as igrejas, digo, nós como igreja, cheia de dogmas, que são indiferentes a Graça de Cristo, só fazem podar aos novos membros recém saídos de seus centros de recuperação. ‘Libertando-os’ da escravidão das drogas e das mãos do diabo, para ao prender aos seus dogmas ou aos seus “usos e costumes”.

Mas há sim casos de recuperação plena, a casos de dependentes que abandonaram de vez o vicio e chegaram a serem consagrados pastores. Há casos que seis meses de internação, muito jejum e oração resolvem. Mas a casos que não. Mas o que eu queria expor aqui é o total descaso da sociedade, do governo e até da igreja, que preconceituosa, acaba jogando de novo, muitos na droga.

Enquanto não tratar-mos as pessoas como seres individuais e com problemas individuais, assim como o grau de dependência, que também é individual e inerente a cada um, continuaremos falhando na recuperação de vidas. Enquanto não nos conscientizar-mos de que cada ser, cada pessoa é um caso individual e não coletivo, vidas continuarão vindo e indo e vice versa aos centros de recuperação (pois a porcentagem de reincidentes é altíssima) vidas continuarão sendo ceifadas pelo crack. Enquanto a igreja não se despir dos dogmas e não tentar fazer a obra que só o Espírito Santo é capaz de fazer, e que terá seu começo nos centros de recuperação com uma estrutura adequada, continuaremos perdendo vidas e vidas preciosas.

Engraçado, agora me lembrei de um fato aqui em minha mente certa vez quando um amigo meu dono de uma rede de lojas em Belo Horizonte e que tinha certa influencia tanto com políticos tanto com autoridades das mais diversas bases, tentou conseguir uma alvará do IBAMA para que fosse soltos pássaros e aves silvestres não só no sitio em que ele morava, mas em todo o condomínio, fazendo daquele lugar um viveiro de aves livres e bem tratadas, tamanha foi a burocracia e exigências que ele acabou por desistir. O que será que se exige para que se abram centros de recuperação?

Anderson Luiz de souza

SALVOS DA PERFEIÇÃO ( Elienai Junior)

6 out

DEUS DE TÃO PERFEITO conheceu a plenitude do tédio. De tão cercado pelo idêntico a si mesmo, incapaz de dizer por que hoje não é apenas um reflexo de ontem, sem jamais ter sonhado com um outro dia, enfadado com a previsibilidade de um mundo impecável, inventou o amor. Ou seria, preferiu amar?

A invenção do amor, ou dos amigos, é o encontro com o imperfeito e aqui está a sua grandeza. Nada se compara ao êxtase da imaginação, à adrenalina do inusitado, ao ciúme diante do livre amante, à ardência do anseio pelo melhor, ao sabor fugidio do fugaz, à satisfação de um mundo transformado, ao descanso gostosamente dolorido diante do que não mais é caos. Sensações próprias da vida imperfeita, do que está para sempre para ser, dos que sempre podem desejar uma outra coisa. Dos humanos.
Logo depois de inventar o imperfeito, Deus conheceu a lágrima da frustração. A dor mais feliz que espíritos livres sentem. Viu as costas dos que mais amou. Duvidou sem desistir, o Criador chorou mais uma vez. Desta lágrima descobriu o perdão. Lágrima esquentada com afeto e graça.
Mal compreendido pelos amigos, inimigos tolos, pecado, recobriram-no de ídolo. De tão cansados do incerto, angustiados por tanta liberdade, os amigos inventaram ídolos, pretensos profetas e arrogantes senhores do futuro, sacerdotes e magos de um deus acuado, cristos milagreiros da mesmice ressurreta. Inventaram a religião, vestiram-se de absoluto.
Deus, que do absoluto fugiu em desespero, que inventara o imperfeito, imperfeito se fez. Inventou-se entre os incertos. Aperfeiçoou a imperfeição. Humanizou-se entre humanos. De tão impreciso, despido das forças do absoluto, igualmente inapreensível, excepcionalmente frágil, tão vivo e tão morto, descortinou o absoluto como quem desnuda o que é mau. Imperfeito, salvou-nos da perfeição.